Poupe o NÃO

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Lembro-me de quando era criança de 9 ou 10 anos e tinha muitas horas de conversas com minha avó Celita. Sentávamo-nos na varanda dela, na cidade da Afonso Claudio, Espírito Santo. O chão era de piso frio e o calor era intenso, então nos sentávamos neste chão tentando ao máximo tocá-lo com a pele na esperança de refresco.


Ali falávamos sobre um tanto de coisas enquanto eu penteava o cabelo dela. Um cabelo bem lisinho de uma típica italiana que usava um coque durante o dia inteiro porque tinha muito o que “lidar” na cozinha.


Eu tinha a mania de perguntar muito, mas muito mesmo. Muitas vezes aquelas perguntas pareciam uns golpes ninja contra a cultura formal tão limitada da minha vovó. Mas nunca me enganei, pois detrás daquela falta de palavras bem formuladas vivia uma sabedoria imensamente maior do que já vi em qualquer lugar desse mundão de Deus.


As perguntas iam desde como Deus criou o mundo inteiro e porque depois “precisou” descansar, até a como as galinhas faziam para chocar ovos, sendo que alguns ovos davam pintinhos e outros não. Ela explicava tudo pacientemente e nunca percebi nela vergonha de dizer que não sabia, quando realmente não sabia. Ah era tanta sabedoria, até para dizer que não tinha a resposta.


Um dia, me lembro bem, ela me fez uma pergunta qualquer, do tipo: Se eu queria um copo de suco ou algo assim. Eu respondi, meio sem prestar atenção, um sonoro NÃO. Em seguida senti o peso e comecei a pensar como o não é sonoro e poderoso, como demonstra uma certa brutalidade e em alguns momentos pode até ofender as pessoas.


Então o assunto ganhou asas e começamos a divagar. Naquele momento não sei se ela me acompanhava para me agradar, de tanto amor que tinha, ou se havia se interessado pelo assunto mesmo.


O que sei é que começamos a trocar ideias sobre como as pessoas poderiam responder com negativas sem, necessariamente, utilizar a palavra não tão seca e dura.


Vovó,  que até àquela altura da vida havia levado tantos nãos na vida... Abandono do marido após traí-la tanta as vezes, filhos mudando o estilo de vida que ela tinha tanto orgulho de tê-los ensinado, vizinhos que não entendiam o quão enérgica (mas amorosa) era ela, enfim. Aquela ali entendia de receber NÃO’S.


Nossa conversa foi longa, mesclada de carinhos, cochiladas rápidas da vovó e minha tagarelice. Mas hoje me lembrei deste dia com tanto carinho, com tanto amor. Foi como se vovó Celita estivesse me acariciando agora mesmo. Senti sua presença.


Senti sua presença através dos ensinamentos, mas principalmente da paciência. Ela me poupou de dizer não para aquela conversa aparentemente tola da netinha perguntadeira. Ela disse sim.


Ela disse sim com seu coração. Com toda a sua linguagem corporal, com seu sorriso, com seus braços e com seus dedos enquanto suspirada de prazer com cada passada de pente por sua cabecinha tão cansada.


Ao final ela concordou comigo. Chegamos à conclusão de que não precisamos secamente dizer não. Podemos dizer respostas do tipo: “Obrigada, vou deixar para outro momento”, ou, “Obrigada já estou satisfeito” e por aí vai.


Podemos deixar os NÃOS para as situações mais pesadas. Até porque nossa língua carece de palavras para dizer coisas com mais significado. Somos obrigados, muitas vezes, a matar formigas e dinossauros com as mesmas expressões e com isso ficamos com uma língua pobre e pálida.


Esta conversa foi apenas uma de muitas, mas a lição que ficou foi de que podemos ser mais suaves, mais singelos e mais doces em nosso dia a dia. Afinal de contas e no final das contas, todo mundo só quer amor e carinho, mesmo que cada indivíduo escolha buscar por caminhos diferentes e distâncias diversas.


Alguns andam mais outros menos, mas no fundo todo mundo quer chegar sempre ao mesmo lugar. Ao lugar do coração.


Eu já estava lá naquele momento com minha vozinha. Fui crescendo achando que me afastando daquele lugar amoroso da infância, construiria a vida e seria feliz.


Percorri e ainda percorro esta estrada longa da vida, mas a todo momento consigo sentir que desde lá já estava no lugar que mais queria estar e para o qual hoje faço de tudo para voltar.

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